Cães sem raça definida caem nas graças dos descolados, que partem para a adoção consciente

“Adotar um ‘sem-terra’ é superchique. Todo mundo que tem um cachorro de raça deveria também adotar um de rua, acho bacana”, diz a banqueteira Maria Alice Solimene (na foto ao lado, com o vira-lata Sem Terra), que já teve dois beagles e hoje é dona de um vira-lata chamado “Sem Terra”, abandonado na esquina de sua casa, na Vila Nova Conceição.

Compartilhando filosofia parecida, o artista plástico Rodrigo Bueno, 37, proprietário do antiquário Passado Composto, nos Jardins, diz com orgulho que é dono de cães sem pedigree: Cosme, Damião e Preta, todos sem raça definida, foram retirados de entidades protetoras. “Eles são únicos e muito afetuosos. Você não tem que ficar ensinando, já sabem o que fazer”, conta ele, que já teve pastor e dogue alemão.

A glamourização do vira-lata se reflete em números. De acordo com a ONG “Vira-lata é Dez”, que mantém 450 cães e 60 gatos, a procura por adoção aumentou 30% desde o início do ano. “As pessoas estão mais conscientes, às vezes levam até cães velhinhos e com deficiência física, o que não acontecia antes. Pensam: por que vou comprar um cão de R$ 1.000, se há tantos animais em asilos precisando de uma família?”, diz Ana Tancredi, presidente da ONG.

A veterinária Andréa Acaui, que organiza feiras de adoção, concorda que ter um vira-lata hoje se tornou “cult”, mas apenas entre os “politicamente instruídos”. “Quem procura por vira-lata é o pessoal descolado mesmo. Isso independe de condições financeiras. Na feira de adoção, as pessoas mais pobres geralmente querem bichos de raça”, conta.

O lado bom dessa “moda”, segundo ela, é que incentiva as pessoas a tirar os animais das ruas. E com uma vantagem para os donos: os cães adotados de entidades protetoras já vêm vacinados, vermifugados e castrados.

“Não é bom pegar animais diretamente da rua, pois podem transmitir doenças ao dono e a outros cães da casa. E, ao levar um cão de rua para casa, é importante lembrar que ele precisa manter uma vida social. Deixá-lo confinado também configura maus-tratos”, afirma.

Na Uipa, a entidade protetora de animais mais antiga de São Paulo com 110 anos e cerca de 1.200 cachorros disponíveis, a procura por adoção cresceu sobretudo nos últimos dois anos. Segundo Vanice Teixeira Orlandi, presidente do órgão, dois tipos se interessam pela adoção de SRDs: gente que realmente quer salvar um cão sem dono e gente que quer apenas economizar.

Beleza é questão subjetiva. “Não dá para dizer se o vira-lata é doável ou não, isso depende do quanto ele é capaz de comover. A idéia inicial, de adotar um vira-lata filhote, doce e saudável, se dilui quando as pessoas descobrem suas histórias, acabam levando até idoso e paraplégico”, conta Vanice.

No Centro de Controle de Zoonoses, os cerca de cem animais disponíveis para adoção foram selecionados entre os mais dóceis e jovens (até um ano) encontrados na rua -os demais são sacrificados, em torno de 50 por dia. “No CCZ são adotados 50 cães por mês, em média. A maioria das pessoas vem com o desejo de salvar um animal, com a idéia de dar lar àquele que foi rejeitado”, afirma a veterinária Elisabete Aparecida da Silva, do CCZ. Assim como acredita Vanice Orlandi, da Uipa, mais do que ter um vira-lata em casa, o que tem que entrar na moda, é o respeito aos animais, com ou sem raça.

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