Depoimento de alguém que escolheu sair da zona de conforto

Esse lindo depoimento foi escrito por Gabriela Gomes, tutora da gatinha Millú.

MINHA HISTÓRIA

Por anos eu vi animais abandonados sofrendo e sentia “pena”, mas nunca fazia nada, porque pensava que eram muitos e eu não faria nenhuma diferença, além do que, um contato maior do que meu olhar, minha pena e o continuar dos meus passos, me traria muita dor, ao saber que eu ajudaria naquela refeição, mas na próxima não poderia.

Quando comecei a ir para a faculdade me deparei com inúmeros animais abandonados no campus, muitos gatinhos abandonados. Tantos, que as pessoas passam entre eles e aquilo parece já ser normal. Também passei entre eles algum tempo sem vê-los.

Com o tempo e ao vê-los por vários dias, comecei a ter aquele sentimento de novo, e ao ver algumas pouquíssimas pessoas fazerem um simples ato, passei a fazê-lo também. Essas pessoas davam a eles restos de seus lanches, algo que não atrapalhava essas pessoas em nada, porque aquela comida iria pro lixo, mas ajudava a acabar com a dor da fome daqueles animais, nem que fosse por uma refeição e isso fazia sim diferença.

Com mais dias se passando e meu olhar voltado para eles, um dia uma cena me faz acordar ainda mais. Vi, além de várias novas gatinhas grávidas que via todo dia, duas ao mesmo tempo terem filhotes, em média 5 gatinhos cada uma. Lembrei então das minhas aulas da faculdade, do colégio e da biologia desses animais, do instinto de reprodução. O instinto é de ordem biológica, ou seja: não existe vontade. Uma vez que o biológico manda, o corpo desses animais, sem falta, faz as gatinhas entrarem no cio, e os gatos, uma vez que ouvem o chamado biológico, não têm escolha a não ser engravidar as gatas fêmeas, e, assim, o ciclo de fome, de abandono, de sofrimento, de maus tratos, de atropelamentos, continua.

Com essa realidade na cabeça, vi que os animais não poderiam fazer nada sozinhos, e que eu também não poderia, exceto se saísse da zona de conforto. Usei então a internet, meu meio maior de encontrar e conseguir coisas, e encontrei alguns sites de entidades que ajudam animais em Fortaleza, inclusive o da UPAC. Vi que eram muito ocupados, recebiam inúmeros casos e pedidos de ajuda difíceis, mas por não conseguir mais simplesmente continuar andando escrevi um e-mail pedindo uma orientação sobre qualquer coisa que eu pudesse fazer para ajudar aqueles animais além de dar ração as vezes e água, como estava fazendo na época.

 AJUDA DA UPAC

Para minha surpresa, apesar dos vários e-mails que recebem todo dia com assunto parecido, me reponderam muito atenciosamente com a real intenção de ajudar. Dias depois, quando passava apressada para ir à aula, vi uma gatinha sentada, muito magra, no corredor. Resolvi oferecer alguns minutos, ração e água. Quando comecei a abrir o saco de ração que sempre levava, ela colocou as duas patinhas em mim e olhou fixamente para a ração. Nunca vou esquecer aquela cena. Imaginei quanta fome ela teria que ter para deixar qualquer cerimônia e falta de confiança nas pessoas de lado e fazer aquilo. Além de estar muito magra, estava mesmo com muita fome. Depois de comer muito e beber muita água, ela veio me agradecer, ao modo dos gatos. Tive que continuar meu caminho Dalí, mas dessa vez não consegui simplesmente continuar os dias tendo aquilo como normal, porque não é.

Pedi então a ajuda da UPAC para fazer algo mais por ela: castrá-la para que não tivesse que continuar aquela maldição biológica que traz tanto sofrimento a mais todo dia, e tentar que depois alguém pudesse adotá-la, para ela ter algo melhor que a fome, os riscos de sofrer nas mãos de alguém ruim e covarde, de ser atropelada naquele trânsito louco e morrer agonizando no asfalto, porque ninguém nunca para pra ajudar.

A UPAC tinha os meios para me ajudar a ajudá-la, se eu pudesse me esforçar um pouco para aquilo. Me colocaram em contato com a clínica veterinária de uma veterinária que não se preocupa em vender roupa para cachorro ou tingir seus pelos, mas em realmente salvar e melhorar vidas. A castração teve um preço muito baixo. Fiquei até com medo, acostumada com o “quanto mais caro melhor” do capitalismo, mas, ao final, me surpreendi com a qualidade da operação.

Depois que a gatinha foi castrada eu já estava muito apegada a ela e passei semanas querendo que ela viesse morar na minha casa(ela estava se recuperando da cirurgia com a Upac), mas com medo até de pedir pra minha mãe, que era indiferente aos gatos e como muitos, pensava que eram animais que não tinham amor pelos humanos como os cachorros têm e que a vida deles era aquela mesmo, de viver na rua, virar latas de lixo e confiar na sorte para continuar vivos.

Com muito esforço, consegui pedir e minha mãe pôde ver o quanto aquele ato era importante pra mim, e permitiu que a trouxesse pra nossa casa. Coloquei redes de proteção em todas as janelas da casa, comprei caixa de areia, tudo. Levei-a ao veterinário, vacinei.

No começo, por não conhecer tão bem os gatos, queria tratá-la e a via como os cachorros que já criei e já se foram pela idade. Queria colocá-la no braço e levar pra perto de mim, abraçar, fazer carinho quando eu quisesse etc. Até consegui às vezes, mas levei uns arranhõezinhos (huahauhauhua) e vi que ela não estava feliz daquele jeito. Li um pouco mais sobre gatos e vi vários cuidadores dizendo que eles são mais independentes que os cachorros e têm um pouco mais de vontade própria e gostam de poder fazer o que querem. Decidi deixá-la à vontade. Hoje, quando ela me segue pela casa por vontade própria, quando deita perto de mim enquanto estou estudando, quando sobe em cima de mim com as quatro patinhas de manhã e deita em mim como se fosse um bebê, me sinto até mais amada, porque sei que ela vem quando e porque quer e não porque eu e quando eu quero. Hoje ela conquistou todo mundo aqui em casa. Todos babamos por ela e a amamos muito.

Estou muito ocupada há alguns meses, e mesmo tendo prometido às meninas da UPAC que me ajudaram tanto, eu “estava sem tempo” pra escrever esse depoimento. Ontem à noite ouvi do meu apartamento um gatinho chorar na rua por muito tempo e ninguém fez nada, nem eu. Isso me doeu muito. Pensei em todas as vezes que eu tive que continuar ou continuei andando diante desses pedidos de ajuda. Sei que assim o sofrimento deles, se passar, passa por cansaço, mas não muda, e volta, até que alguém mude aquela situação.

 COMO AJUDAR

Portanto, se você sente o mesmo que eu senti e sinto agora e quer ajudar esses animais que não têm ninguém por eles, mas muito sofrimento, não é preciso tanta coisa, nem tanto dinheiro. Há pessoas como a Mariana e a Raphaele da UPAC que dedicam seu esforço, seu tempo e suas vidas a tentar mudar essa realidade tão triste e esquecida, ignorada. Mas que pelo número de animais, não têm todos os recursos que são necessários, tanto financeiros como de “mão de obra” mesmo. Se quiser ajudar, com 40 reais apenas, você pode castrar um gatinho. Pode parecer pouco, mas cada um que é castrado evita que a cada 4 meses  mais 5 nasçam (às vezes mais) para viver na rua, no lixo, sendo chutados por aí, procurando no asfalto e no concreto algo pra matar a fome que dói todo dia e a sede dos dias quentes e secos de Fortaleza. Para dar de presente a castração, você deve entrar em contato com a UPAC para ver outra forma ou depositar a quantia na conta desta instituição tão séria e que já mudou e continua a mudar a vida de tantos animais, com a ajuda da população:

Banco do Brasil
Nome: União Protetora dos Animais Carentes
Agência: 1295-5
Conta: 42.417-x

Ou por boleto bancário ou cartão de crédito pelo site: http://www.vakinha.com.br/VaquinhaP.aspx?e=122454

Além disso, você pode amenizar um pouco do sofrimento dos animais que moram nas ruas, colocando ração (pesquise no supermercado ou em petshops, há muitos rações com preço em conta) e colocando água limpa. Um sugestão: compre pratinhos fundos de festa, aqueles de plástico, descartáveis, e use para colocar a água e a ração.

 ADOÇÃO

Você pode ainda adotar um animal, um cão ou gato. Mas, antes, pense se você vai poder criá-los como precisam e merecem e pelos anos que viverem (em média 15 anos). Leia sobre esses animais antes e veja se está disposto, e não irá abandoná-los na rua na primeira surpresa.

Muita gente diz que ama os animais, até adota, mas as condições que oferecem a eles são ruins. Como condição ruim não quero dizer a ração que não é a mais cara ou algo do tipo. Quero dizer a falta de cuidado, de atenção, de conhecimento, de amor. Não adianta adotar um gato e não castrá-lo, por exemplo, pois, tendo ele acesso a rua, vai engravidar gatinhas abandonadas ou, sendo fêmea, vai colocar vários gatinhos no mundo que vão entrar na fila da adoção, e essa fila já tem quilômetros e muitos morrem esperando, sem nunca ter tido um lar. E conseguindo você pessoas para ficar com eles, não saberá como serão tratados e nem se um dia essas pessoas não vão abandoná-los (acontece mais do que você imagina). Ficando o animal não castrado apenas em casa, sendo fêmea, sofrerá por dias e incomodará a você e aos vizinhos quando estiver no cio. Sendo macho e ficando só em casa, mas não sendo castrado, pode urinar em vários locais indesejados, porque seu biológico o obriga a marcar território. Quando são castrados, ficam mais dóceis, caseiros, não têm cio, não trazem ao mundo mais “sofredores”, urinam apenas na areia. E isso é apenas um dos fatos.

Portanto pesquise e pense MUITO antes. Gatos e cachorros não são bichinhos de pelúcia, são seres, que como você, sofrem, amam e se apegam ao dono. Precisam de ração todo dia, de areia para urinar e fazer cocô (no caso dos gatos) ou de alguém que recolha suas fezes e os jornais com xixi no apartamento, ou recolha as fezes no jardim (no caso dos cachorros).

Adotar um animal é uma experiência maravilhosa, que transforma humores, vidas, rotinas, deixa a vida com mais sorrisos. Mas além de pensar em você, pense nas condições que tem, no que está disposto a fazer pelo animal e que eles são como filhos, irmãos, não se pode simplesmente abandonar ou dar as costas quando enjoar, quando der despesa, quando estiver doente. Isso é uma covardia sem tamanho. Portanto, mude estas vidas apenas para melhor, pois estes animaizinhos tem o coração puro e estão esperando um companheiro humano para lhes melhorar a vida e dar em troca muito amor e alegria.”

Millú, agora sabe o que é um lar e recebe carinho.

Millú, agora sabe o que é um lar e recebe carinho.

 

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por upacfortaleza Postado em Adotados

5 comentários em “Depoimento de alguém que escolheu sair da zona de conforto

  1. Sem palavras. Simplesmente a esperança de que as coisas ainda podem dar certo. Parabéns pelo seu texto, pelos seus atos, pela sua vida. Você nem imagina como é bom saber que existem pessoas como você na Terra. Você, e todos os que amam de verdade os animais, são a certeza de que vale a pena acreditar num mundo melhor. Mais uma vez, parabéns! E muito obrigado por você existir…

  2. Meus olhos enxeram d’água (rs) tenho três cachorros e um gatinho. Os dois últimos cachorros que adotei peguei da rua. O gato também era de rua. Eu os amo tanto, quando eles estão doentinhos nem durmo direito. Gabriela, fico muito feliz em saber que ainda existem pessoas como você que gostam de mudar a situação. O amor é demonstrado pelas ações, muitos dizem gostar ou amar, mas não tomar nenhuma iniciativa. Parabéns que Deus te abençoe!!

  3. Graças a Deus ainda tem pessoas boas neste
    munto tão cheio de coisas ruins , mas são esses bichanos que nos alegram e nos dão a esperança de dias melhores.

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